A liturgia católica é, por si mesma, uma linguagem e uma arte: linguagem porque trata da comunicação entre Deus e seu povo; arte porque é uma forma de representação do mistério invisível de Deus. A celebração eucarística possui duas partes: a liturgia da palavra, que é puramente linguagem, e a liturgia eucarística, que é uma representação ritual. Porém, a liturgia é uma linguagem própria e uma forma muito específica de representação, sem qualquer necessidade de inventarmos outras. Nas celebrações, é inconveniente acrescentar outros tipos de linguagem ou criar outra maneira de representar o mistério, além daquelas estabelecidas pela Santa Sé. Tentativas malsucedidas neste sentido são, por exemplo, fazer paródias com textos litúrgicos, como nas tais missas “sertanejas”, e representar teatralmente cenas da Sagrada Escritura durante a missa. Quando isso é feito, ao invés de ajudarmos o povo a rezar melhor, nós o atrapalhamos, porque estamos tentando substituir a linguagem e a arte próprias da liturgia por outras que consideramos melhores.
Ora, pretender “melhorar” ritos solenes e sóbrios que foram sendo compostos pela Igreja ao longo de dois mil anos é, no mínimo, uma arrogância, e quase sempre um desatino, até porque nós, que servimos nas comunidades como ministros ordenados e fiéis leigos, não somos “artistas”, não sabemos dar show e fazer espetáculo, somos amadores nesses campos. Nossa missão é outra: celebrar bem e só isso. Além disso, o povo vai à Igreja não para ser obrigado a aplaudir peças teatrais e apresentação musical. Para isso existe o teatro, a TV, a internet. Quando tentamos fazer isso dentro das celebrações, quase sempre caímos no ridículo e profanamos o mistério, que tem um modo próprio de se revelar, conforme o que a Igreja determina.
Hoje, com a grande acessibilidade que temos às redes sociais, é possível colecionar gafes litúrgicas infelizes: bombas estourando no presbitério para representar a ressurreição de Cristo, jovens dançando e curvando-se para serem aplaudidos na frente do altar, padres tocando viola ou berrante e contando piada ou fazendo outras gracinhas enquanto celebram a Eucaristia... A última aberração que “viralizou” foi o drone fazendo voar o ostensório com o santíssimo sacramento. Tudo isso tem sido expressamente proibido pelos papas e pela conferência dos bispos. No entanto, muitos ignoram as orientações e, no afã de “agradar o público”, inventam, abusam da criatividade, ultrapassam todos os limites, como se tivessem os direitos autorais sobre a liturgia oficial da Igreja. E o pior é que não percebem que a tática não está funcionando: o número de católicos continua caindo.
O concílio Vaticano II, no texto sobre liturgia, propõe-se a “adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições suscetíveis de mudança” (Sacrosanctum Concilium, n. 1). Ao dizer isso, deixa bem claro que nem tudo pode ser mudado na liturgia, mas apenas o que for estritamente necessário adaptar – e somente com autorização da Igreja – para que as pessoas de hoje rezem melhor o mistério de Cristo. É urgente resgatarmos a linguagem e a arte que são próprias da liturgia da Igreja, sem substituí-las pelas que nós mesmos criamos, para não corrermos o risco de sermos comunidades cultuando-se a si mesmas, ao invés de adorarem o mistério de Deus.
Juliano R. Almeida, presbítero
03 de abril de 2018
Terça-feira na Oitava da Páscoa
Ora, pretender “melhorar” ritos solenes e sóbrios que foram sendo compostos pela Igreja ao longo de dois mil anos é, no mínimo, uma arrogância, e quase sempre um desatino, até porque nós, que servimos nas comunidades como ministros ordenados e fiéis leigos, não somos “artistas”, não sabemos dar show e fazer espetáculo, somos amadores nesses campos. Nossa missão é outra: celebrar bem e só isso. Além disso, o povo vai à Igreja não para ser obrigado a aplaudir peças teatrais e apresentação musical. Para isso existe o teatro, a TV, a internet. Quando tentamos fazer isso dentro das celebrações, quase sempre caímos no ridículo e profanamos o mistério, que tem um modo próprio de se revelar, conforme o que a Igreja determina.
Hoje, com a grande acessibilidade que temos às redes sociais, é possível colecionar gafes litúrgicas infelizes: bombas estourando no presbitério para representar a ressurreição de Cristo, jovens dançando e curvando-se para serem aplaudidos na frente do altar, padres tocando viola ou berrante e contando piada ou fazendo outras gracinhas enquanto celebram a Eucaristia... A última aberração que “viralizou” foi o drone fazendo voar o ostensório com o santíssimo sacramento. Tudo isso tem sido expressamente proibido pelos papas e pela conferência dos bispos. No entanto, muitos ignoram as orientações e, no afã de “agradar o público”, inventam, abusam da criatividade, ultrapassam todos os limites, como se tivessem os direitos autorais sobre a liturgia oficial da Igreja. E o pior é que não percebem que a tática não está funcionando: o número de católicos continua caindo.
O concílio Vaticano II, no texto sobre liturgia, propõe-se a “adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições suscetíveis de mudança” (Sacrosanctum Concilium, n. 1). Ao dizer isso, deixa bem claro que nem tudo pode ser mudado na liturgia, mas apenas o que for estritamente necessário adaptar – e somente com autorização da Igreja – para que as pessoas de hoje rezem melhor o mistério de Cristo. É urgente resgatarmos a linguagem e a arte que são próprias da liturgia da Igreja, sem substituí-las pelas que nós mesmos criamos, para não corrermos o risco de sermos comunidades cultuando-se a si mesmas, ao invés de adorarem o mistério de Deus.
Juliano R. Almeida, presbítero
03 de abril de 2018
Terça-feira na Oitava da Páscoa